Making of “Pardalita”

Acho que comecei a pensar neste livro (“Pardalita“) quando estava a trabalhar noutro. Tinha acabado de desenhar o “Aqui é um bom lugar“, escrito pela Ana Pessoa, e gostei tanto de o ler e de como a Ana ligava pequenos momentos na vida da personagem principal para contar a história de um ano, que quis experimentar escrever alguma coisa dessa forma.

Também foi o mesmo ano em que estreou o filme Call Me By Your Name, baseado no livro no mesmo nome, escrito por André Aciman. Parecia que toda a gente à minha volta estava a falar sobre este livro, e decidi lê-lo para me poder juntar à conversa. Uma das coisas que mais gostei foi a forma como ele descreve o estado de estar apaixonado por alguém e alerta para tudo o que essa pessoa faz, da sua presença, da maneira como fala, à procura de um sinal. Então decidi que também queria experimentar escrever sobre isso.


Portanto, estava cheia de confiança. Mas acho que quando lemos e vemos coisas que gostamos é sempre assim, ficamos com vontade de fazer e acontecer.

Ao mesmo tempo, o livro começou alimentado por uma história que me tinham contado. De alguém que, na adolescência, gostava de uma rapariga da escola que só conhecia de vista e depois ficaram amigas num grupo de teatro. A história também tinha idas para tomar café, noites mal dormidas e o futuro marcado nas palmas da mão, lido por uma bruxa no centro comercial.


Havia coisas nessa história que eu conhecia bem: a sensação de viver num sítio onde toda a gente sabe tudo sobre todos, e a situação de começar amizade com alguém de quem não queremos ser só amigos, e de como isso consegue ser absolutamente desconfortável e mágico ao mesmo tempo.
Pedi autorização para usar esta história como ponto de partida, e foi assim que comecei a escrever.

Gostava de dizer que tinha um plano sobre o que queria contar, de como o livro se ia desenrolar e acabar, mas na verdade foi um processo muito caótico onde iam surgindo peças soltas e eu ia montando tudo, como um puzzle.


Sabia que queria ter um livro híbrido, que ia ter desenhos e banda desenhada intercalados com texto, mas demorei algum tempo a decidir como é que isso ia funcionar. Mudei de ideias mil vezes até chegar a uma solução que me parecesse coesa. Uma coisa que ajudou muito foi ter criado a fonte a partir da minha caligrafia, com a ajuda da Joana Pardal.

O livro foi desenhado no iPad, com o programa Procreate. Normalmente os cenários dos meus desenhos são muito simples, ou inexistentes, mas neste livro queria que a cidade e os interiores das casas e da escola tivessem personalidade.
A maior parte foram baseados em fotos de Penafiel, que é a cidade de onde eu sou. Foi um exercício estranho, porque toda a minha vida vi estes sítios e nunca pensei que fossem dignos de serem desenhados. Mas agora vejo que há qualquer coisa na paisagem de Penafiel que é interessante, especialmente por ser um bocado feia. Usei o Google Maps e fotos que tirei com o telemóvel.




Em Lisboa, fiz um passeio a começar no Príncipe Real e a acabar no Cais do Sodré e tirei fotos a tudo para depois ter referências para desenhar.


Na verdade não tenho muitos rascunhos dos desenhos do livro porque foi tudo feito em digital, mas a parte boa é que o Procreate guarda os vídeos de mim a desenhar, juntei alguns deles aqui:


E, por fim, eu nunca fiz parte de um grupo de teatro, mas o TUP deixou-me assistir a duas das suas aulas, nas quais me inspirei para escrever as cenas do livro. Gostava de ter ido a mais, mas a pandemia começou por volta dessa altura e ficou tudo em pausa.


Mesmo assim, o momento da entrada para o Teatro acabou por servir para uma parte importante na história. Ficou no meio do livro e marca um ponto de quando se passa de gostar de alguém à distância a fazer parte da vida dessa pessoa.